quinta-feira, maio 31, 2007

h2o

"A água chia no púcaro que elevo à boca.
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la.
Sorrio. O som é só um som de chiar.
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta.
"

(in "Poemas Inconjuntos". Poemas Completos de Alberto Caeiro)

e eu, que assumidamente não bebo a água, tô aqui, sofrendo as consequências com um tendão lesionado... tsc, tsc... gosta tanto de pessoa... bem que se podia deixar influenciar, né? ;)

segunda-feira, maio 21, 2007

minúscula singular

"um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
mas o que é um renque de árvores? há árvores apenas.
renque e o plural de árvores não são coisas, são nomes."
(alberto caeiro / fernando pessoa)

ogro sem bussunda

estou curiosa pra saber o que será do shrek terceiro sem a malandragem característica e engraçadíssima da dublagem do bussunda... dá pra imaginar o ogro versão brasilis sem o famoso "fala sério, aê!"? :)

reflexões de um espectador culpado

dia desses iniciei a leitura de reflexões de um espectador culpado, de thomas merton - um monge trapista norte-americano e um dos mais influentes autores católicos do século 20. e o faço a partir de uma versão publicada em 1970 pela editora vozes, que me fora gentilmente emprestada por um bom amigo. (obrigada, marco! :))

para não me estender comentando sobre o formato do livro - que a mim me parece algo como a pré-história do blog moderno, ou seja, um conjunto de posts livres e independentes - impagável o post de abertura, que me fez reconhecer o mozart sofiânico que, também eu, desperto a cada nova manhã, com as notas que saltam dos auto-falantes do meu carro no caminho para o escritório. bravo! :)

* * *

deixo de falar sobre o livro, e publico aqui um trechinho que escolhi para compartilhar com vocês. para quem quiser saber mais, recomendo explorar o blog da sociedade dos amigos fraternos de thomas merton... :)

"o monge destacado para a leitura no refeitório esta semana é notavelmente sério. em cada refeição, anuncia o título do livro: "o direito de ser alegre". abaixa a voz muito ligeiramente na palavra alegre como se hesitasse em pronunciá-la, quase como se desaprovasse inteiramente o título. "deus nos livre, não temos o direito de ser alegres!". se no livro se faz menção de comer ou beber, amortece a voz e, muito ligeiramente, ainda com o mesmo tipo de preocupação como se retirasse sua vontade da palavra "comer", deixa-a flutuar sozinha, irresponsavelmente, diante da reprovação divina.

quando porém aparecem as palavras "morte", ele as deixa cair sem cerimônia no meio do refeitório, fortemente, com satisfação e de maneira irrevogável.

reparei que um outro membro muito austero da comunidade, severo com tudo que concerne à natureza e sóbrio à mesa, come muito devagar depois de esmigalhar todo o alimento como se fôra papa de bebê. sinto-me feliz pela evidente satisfação que ele retira desse ritual particular."

(in Merton, Thomas. Reflexões de um Expectador Culpado. Ed Vozes Ltda., 1970)

sábado, maio 12, 2007

poeminha de despedida para a minha avó que foi sem nunca ter sido

"Se eu pudesse trincar a terra toda
e sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
e a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja..."

(in Poemas de Alberto Caeiro, Fernando Pessoa)

porque é assim que eu com vocês aprendi, vô e vó Kitamura. meus avós queridos, que foram, tecnicamente sem nunca ter sido. mas afetivamente sempre mais do que nunca antes. nem tudo é dias de sol, já diria o poeta. mas ao lado de vocês, todo dia foi dia de brincar, de aprender, de compartilhar. me faltam palavras para expressar a diferença que vocês fizeram na minha vida. muito obrigada por todos os tudos. bela é a noite que fica. até breve!

quarta-feira, maio 02, 2007

a question of balance

desde que me conheço por gente cultivo uma fascinação pela ilustração. jamais tive qualquer talento para o traço, muito embora tenha me aventurado por anos, curiosa exploradora do mundo da aquarela. desenvolvi logo aquela atração por livros ilustrados e nada me parece mais presente do que as cenas de alice no país das maravilhas.

certa vez, numa daquelas coincidências da vida, conheci um ilustrador excepcional, meio que por acaso, literalmente ao som de beethoven num final de tarde gelada de outono em rottenburg. um pouco atrasada para o Stadtrund (city tour), acabei me juntando ao último grupo do dia, ao cair do sol: todos estudantes, ilustradores e músicos, da universidade de heidelberg. todos, exceto por mim e pelo ucraniano peter kijanitsa, cujas ilustrações tivemos o prazer de apreciar ao vivo. o peter andava numa fase de palhaços e seus trabalhos remetiam à alegria de viver e ao prazer da música. sensível, colorido, perfeito. por sorte, arrematei um bom número deles, e de quando em vez, volto a eles e à alegria que me trazem.


aprendi com o leo a apreciar o traço tímido e característico do ilustrador francês jean-jacques sempé. tudo começou por conta das belas ilustrações das aventuras da personagem le petit Nicolas. não demorou muito, e descobri verdadeiras jóias dentre os trabalhos de sempé, como o livrinho les musiciens e a coleção de postais "a question of balance", aqui representado pelo casal da ilustração ao lado. sempé é um dos mais famosos ilustradores do mundo, tendo inclusive uma história de vida curiosíssima: foi expulso da escola por mau comportamento, falhou sistematicamente em testes para trabalhar nos Correios, banco e Ferrovia francesa; sem opções, entrou para o exército, onde ficou detido algumas vezes por ter sido pego desenhando ao invés de fazer policiamento. ganhou um prêmio de encorajamento de artistas amadores em 1942, e há anos é conhecido por seus trabalhos para a capa do new yorker, paris match, e um bom número de outros artigos como livros, postais e afins.

eu podia contar um pouco sobre minha experiência com as ilustrações da miss potter mas isso vai ficar para um outro post, complementar às minhas impressões do filme de ontem.

alguém conhece outros ilustradores com trabalhos interessantes? talvez o weno, nosso querido artista de plantão? :-)

idéias? time to share...

terça-feira, maio 01, 2007

variações sobre o mesmo tema

e por falar em cinema, assisti hoje miss potter e também gostei bastante do que vi. talvez como crítico de cinema eu viesse a engrossar o coro dos críticos, salientando que como filme, não é nada inovador. de fato. mas como cinéfila, e especialmente admiradora das belas ilustrações de beatrix potter - ainda hoje uma referência quando o assunto é ilustração - fiquei bastante satisfeita com a proposta e o argumento narrativo.

a fotografia do filme é muito bonita e as locações no campo valem cada pedacinho de cena. talvez eu concorde que a animação das ilustrações tenha agregado pouco ao resultado final, mas a mim me pareceram interessantes como suporte ao mundo de fantasia da "menina calvin", fora do padrão de comportamento esperado nas moçoilas burguesas emergentes e européias de início do século XX.

li uma matéria muito interessante com o diretor destacando primeiro sua preocupação com o papel cedido a renée zellwegger depois da desistência por problemas de agenda da grande cate blanchet; ele dizia ter ficado reticente quanto à capacidade de renée de interpretar uma beatrix livre das habituais caras e bocas características das personagens da renée; mas termina se dizendo absolutamente satisfeito com o resultado, a leveza da interpretação, a capacidade da gigante renée em se adaptar ao papel com ajustes mínimos. acho que a presença e interpretação da renée influenciaram a minha expectativa sobre o filme; mas definitivamente, o resultado me agradou em cheio. recomendado!